De entre todos os animais que o homem utilizou como auxiliares de caça, apenas uma criatura dotada de destreza singular, poderia ser útil ao homem na caça ao voo – a ave de presa. A arte de adestrar e caçar com aves de presa denomina-se falcoaria. Na Península Ibérica, esta arte antiga, é também conhecida por “cetraria”, palavra oriunda de “accipitraria”, do latim “Accipiter”, que designa um grupo de aves falconiformes (açores e gaviões). Mais raramente a actividade é também designada por “voaria” ou “volataria”, sendo esta expressão mais abrangente, incluindo toda a utilização de voláteis adestrados para práticas cinegéticas e até piscatórias, como por exemplo, a pesca com cormorão ou corvo-marinho. A Falcoaria ou Cetraria, é pois uma das mais antigas e engenhosas modalidades de caça inventadas pelo Homem. Crê-se que tenha surgido em período neolítico, algures na Ásia Central, donde terá irradiado para sul e também para oriente, penetrando na China e no Japão. Um dos mais antigos testemunhos históricos encontrou-se na Antiga Mesopotâmia, num baixo-relevo da arte Etrusca, datado do ano 1.400 a.C.. Foi durante a Idade Média que a falcoaria conheceu a sua “Idade de Ouro”, transformando-se na distracção favorita dos senhores medievais e num privilégio da nobreza. Na Península Ibérica, esta modalidade de caça praticou-se desde o século V, tendo sido introduzida pelos Suevos e Visigodos e mais tarde aperfeiçoada com o advento das cruzadas e com o contacto com os povos árabes. Falcões, açores e outras aves de presa, transformam-se em símbolos de prestígio e de elevado estatuto social. Falcões raros fizeram parte de dote de casamento de princesas, foram objecto de presentes reais, adornaram as relações diplomáticas entre os Estados Europeus, serviram como instrumento de resgate de prisioneiros de guerra, etc. A necessidade de sistematizar todos os conhecimentos relativos a esta disciplina de caça, levou os reis a encarregar aos seus falcoeiros a redacção de tratados de falcoaria, hoje considerados um género literário medieval, os quais guardam os mais preciosos e genuínos aspectos desta arte. “De Arte Venandi cum Avibus” (1247), ou “A Arte de Caçar com Aves”, da autoria do Imperador Frederico II de Hoehenstauffen, é o mais completo e importante tratado de falcoaria escrito em toda a Idade Média. Os tratados de alveitaria e cetraria, de Mestre Giraldo, físico do rei D.Dinis, e o Livro de Falcoaria, de Pêro Menino, falcoeiro de D.Fernando, são os mais antigos compêndios portugueses de falcoaria. Na Lei da Almoçataria (1253) encontram-se as primeiras grandes referências à prática da falcoaria em Portugal. Nela constam as primeiras regulamentações com vista à protecção das aves de presa e também o primeiro esboço de um calendário venatório, instituindo um período de defeso durante a época de reprodução das espécies silvestres. O desastre de Alcácer Quibir, representou um declínio nas actividades da falcoaria real portuguesa, encerrando um ciclo de esplendor.“Durou esse passatempo tão justo até ao reinado de El-rei D. Sebastião, no qual acabaram todos os senhores a esta caça afeiçoados e os homens práticos nela, e a altaneria juntamente com eles” (Diogo Fernandes Ferreira, 1616). A “Arte da Caça de Altaneria” é a mais importante obra portuguesa de falcoaria, publicada em Lisboa, em 1616, durante o período de regência dos reis espanhóis. O seu autor, Diogo Fernandes Ferreira, justifica-a assim: “por não faltarem senhores desejosos de renovarem a caça e carecerem de homens que nela os soubessem servir, me pareceu ter obrigação, assim à arte como à nobreza deste reino, fazer este trabalho”. A literatura de falcoaria era um género muito apreciado na época. Existem dezenas de tratados estrangeiros da época, descritos no Hartings Bibliotheca Accipitraria, face aos quais o tratado português apresenta aspectos inéditos. A “Arte da Caça de Altaneria” pode ser considerado um ex-libris da literatura cetreira da Europa seiscentista, testemunhando as grandes tradições que esta actividade teve no nosso país. As cortes europeias tinham ao seu serviço falcoeiros profissionais que treinavam e cuidavam estas aves de luxo. Os mais requintados segredos desta arte mantinham-se por tradição oral e eram transmitidos de geração em geração. Os falcoeiros medievais eram conhecedores profundos do seu ofício e podem ser considerados os precursores dos ornitólogos contemporâneos. Para a época, estes homens possuíam avançados conhecimentos sobre as aves de presa, sua biologia e etologia, bem como sobre o tratamento das enfermidades das aves, destacando-se na corte como “mestres da natureza”. Em 1568, D. Sebastião criou um regimento próprio para o ofício de Falcoeiro-Mor, ou Caçador-Mor, cargo que superintendia o funcionamento da falcoaria da casa real. O Falcoeiro-Mor era normalmente coadjuvado por vários mestres falcoeiros, oficiais e aprendizes. O período da Restauração do reino não permitia gastos supérfluos e, em 1651, D. João IV resolve extinguir o cargo de Falcoeiro-Mor, fundindo-se a partir desta data com o cargo de Monteiro-Mor. Mais tarde, nas primeiras décadas do século XVIII, a falcoaria de estado é retomada com grande fausto e sumptuosidade, iniciando-se um período de grande esplendor. Dotada de instalações próprias em Salvaterra de Magos, no Ribatejo, a Falcoaria Real rivalizava então, com o que de melhor havia na Europa da época. As técnicas de adestramento das aves e a execução dos lances, são levados ao mais alto nível durante os reinados de D. José e D. Maria. Este rico período da falcoaria barroca portuguesa, largamente documentado nas crónicas da época, ficou marcado pelos mestres falcoeiros dos Países-Baixos, contratados pela coroa portuguesa para dirigirem a Falcoaria Real de Salvaterra de Magos. O advento da Revolução Francesa e a nova ordem estabelecida, deixaria pouco espaço de manobra para a subsistência da falcoaria, a qual recordava demasiado o luxo e a sumptuosidade dos tempos passados. Por outro lado, os ventos da República, a mudança dos gostos e dos hábitos, nomeadamente a vulgarização da caça com armas de fogo, bem como o advento da I Guerra Mundial, acabaram por fazer cair no esquecimento esta modalidade de caça, levando ao seu rápido declínio e praticamente ao seu desaparecimento em toda a Europa.
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